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quarta-feira, 9 de abril de 2014

TRÊS INCURSÕES

(ressaca)

grito na escura humidade
rodopio na estação infernal
está tudo ácido derretido

vergo-me à pressão
na dispersante obscuridade
desta janela infinita

e no vazar do copo
deste fruto destilado
desaparecem-me as pernas

sou qualquer coisa‑metade
de passagem pela grande rua
sem me conseguir apanhar

***

(H.)

dá para matar bastante
uma flecha prateada
apontada à fantasia

os peixes de bicicleta
na lua fazem as mães
chorar muito mais alto

os índios quando cantam
abrem uma porta de fogo
e é por ela que passam

tudo sempre se esvazia
e por refinado que seja
lirismo não mata a fome


***

(adeus)

tenho este mel na boca
estalando a lágrima feliz
eu quero despedir‑me em paz

num tremor para o fim da agonia
o horizonte vai‑me rasgar o peito
já não posso adiar esta emoção

é grande o oceano que me chama
para dentro do calor maternal
que dura a própria essência da vida

eu já não estou eu já fui
na canoa verde dos índios
eu não posso adiar a coração

segunda-feira, 20 de maio de 2013

postais


no vazio do café à da vezinha
resto sobre as mesas
depois das partidas de sueca

o ar permanece vigorosamente
cheio de escamas de conversas
duma leviandade sedutora

como a paisagem da morte no húmus
os objectos inertes aplaudem
a fria celebração da noite amiga

sinto que transporto em mim
o fim inevitável dalguma coisa
que não posso deixar de agradecer

quinta-feira, 9 de maio de 2013

postais


o fumo do cigarro do pai
na primeira hora da manhã
que alivia o frio nos ossos

durante a faina é maciça
a fundura no olhar
que guia o barco no silêncio

regresso sem nada nas mãos
rasgadas de nylon e robalos
o cachão cortado pela proa

este anzol enterrado no sangue
é um fender em águas invisíveis
a remota natureza do passado

terça-feira, 16 de abril de 2013

postais


e na distância infinita
que acusa o transparente dia
cair para dentro do mar

as cores que a água faz
ritmos que as ondas cruzam
lodo que vai atolar

o segredo marítimo constante
vai embrulhando as conchas
nas mãos dos bons amantes

há uma fortuna fundeada ao largo
o pássaro vem pousar no ombro
podia tudo ser tão simples

sexta-feira, 5 de abril de 2013

postais


habitar no precipício
entre as artérias da indústria
nos restos do primitivo

sintoma de agonia brutal
tudo curto‑circuito
tão decadente demais

o brilho fundo dos líquenes
enterrando os telhados
das casas antigas

electrodomésticos apodrecem
tentando suster o implacável
movimento das dunas

quinta-feira, 4 de abril de 2013

postais


à sombra tépida das marés
medusa embala as cascas
do que foram coisas vivas

o resto podre de um remo
anzóis perdidos da pesca
variado plástico dos oceanos

chegam barcos à praia vazios
e os homens antigos coçam
a arte na ponta dos dedos

acentua o sol o salitre
na pele queimada dos filhos
que ainda chamam pelo vento