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segunda-feira, 10 de agosto de 2015

DIÁRIO DE BORDO




quando o raio do sublime te atinja
e tu na tua profunda honestidade
não lhe adivinhares a graça
ou porque outro fundamento
se interpõe mais forte
e tu que tanto queres escrever
investes em memorizar um rasgo
que julgas ser um puro acesso de poesia
e tens razão e por isso repetes
insistente na cabeça essa primeira estrofe
para te perderes no meio do que poderá vir a caminho
caga nisso desfruta não escrevas nada
será o teu maior sucesso
repeti-lo-ás vezes sem conta
escrever sem ter escrito nada



***

a grande cidade cairá
insisto teimosamente em escrever
enquanto combato as misérias ordinárias
que me obstinam porque só vejo destino
nas distâncias imensas na vastidão do tempo
que são na realidade o universo em que vivemos
e não esta penúria esta opressão este crime
esta condenação a iminência do fim súbito
esta falta de alegria esta eternidade de grandes e pequenos
esta luta sem ser luta que para lado nenhum nos leva
e nos enterra e lá fora a grande noite de nebulosas
e galáxias e planetas e estrelas que explodem como sinfonias
e os homens parados sem fazerem o que fazem os homens

sábado, 31 de maio de 2014

diário de bordo

não há mais nada para dizer
já nem o cuspo cola
a areia resume-se ao incontável

e que sobra dessas horas de voragem?
onde é que está o mar que pensámos prometido?
que barqueiro virá? que moedas lhe daremos?

queremos dar a volta subir passar para outro lado
agarrar a besta de novo e novamente
queremos inventar um pó que nos suje outra vez as mãos
como sempre

que faremos agora que encostamos a faca
à garganta de todos os monstros sagrados
e nada mais resta além da pornografia

que faremos com este calor
de onde nada nos salva
e todos os cães são de guia

que faremos amanhã quando rebentarmos de prazer
quantas interrogações ficaram por pontuar
e que pontuações nunca interrogaremos

podemos falar de casas e de paisagens
da solidão que vive dentro dos objectos ordinários da vida
branquear a memória sem levantar suspeitas
crivar toneladas de literatura
e depois disso
que podemos
nós?


***


uma corrente sem direcção
um acontecimento sem acontecer
um nome sem uma coisa para lhe dar
um significado sem significar

um narciso sem reflectir
um panteão por adorar
uma celebração sem vinho
histórias que ninguém vai lembrar

um amor pouco dado
uma flecha nunca disparada
uma jóia muito trabalhada
enterrada no túmulo de um qualquer rei

uma alegria que não causa alvoroço
vai guardada na profundidade de um bolso
uma tristeza que faz meio mundo chorar
plantada no sono de quem se recusa dormir

e não tem fim


***


o peixe da minha vida

podemos sempre ir mais fundo
atravessar todas as coisas que não se julguem nossas
podemos continuar a tocar todas as manhãs
como se a música nunca tivesse acabado

podemos dançar
entregar tudo ao livre movimento
nunca impedir que a água corra
por onde a água tiver que correr

podemos flutuar
deixar que o corpo se levante
e deixar
simplesmente
que a coreografia aconteça

desse sonho tão querido tão desejado
enfim nos libertemos da lei da gravidade
e apenas ser
toda a virtude que é amar

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

DIÁRIO DE BORDO

a chuva tem uma música que eu consigo ouvir
uma magia meteorológica carregada no cinzento
que se aprende a olhar o tempo nos olhos duma
criança pendurada à janela na tarde de domingo
enquanto não chega o sono e a escola não começa
demoramos a crescer fazendo trabalhos de casa
damos por nós a brincar e há uma vida inteira que passa

adiando o despertador minuto a minuto
o cheiro das torradas faz‑nos salivar na cama
e com dez anos começamos a beber café
e dez anos mais tarde somos a mesma criança
o sono a chuva as tardes de domingo
que nunca conseguimos preencher

põe‑lhe mais dez anos em cima
e o que mudou foi o tamanho da roupa
e agora brincamos como gente grande
todos os trabalhos ainda são de casa
não temos testes mas aquilo que nos aconteceu
pode ser que nos dobre a broa d’asperança


***

aqui a bordo vamos todos bem
porque não existe mais do que este barco
e ainda conseguimos ir todos dentro dele
e na verdade a grande luta que travamos
é esta vontade de fugir acometida ao infinito

podemos pensar que passa mas ao largo
não existem os mínimos sinais de terra
e até as baleias fogem de nós
enterrámos definitivamente o azul

vamos todos bem mas somos um perigo
somos o escuro mais duro do destino
a mancha salgada nas cartas de navegação
que nenhum astrolábio consegue resolver
e todas as mães continuam a chorar


***


o mito é a moca que faz o futuro
a ânsia que faz as nações perdurar
o espectro da grandeza a simulação
o fantasma intermitente da obscuridade

sem que a nefasta sombra nos tombe
e por ventura admiremos na dureza
os tratados que nos dizimaram aos milhares
havemos de continuar navegando

o mar só tem duas coisas certas
a volta ou o não voltar


a história só tem uma