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quinta-feira, 24 de abril de 2014

POEMA COMEMORATIVO DOS 40 ANOS DO 25 DE ABRIL

                               






dedicado ao José Mário Branco, dedicado aos que nunca se renderam e que nunca se renderão




já gastaram um balúrdio em cravos
enfeitaram tudo muito bem enfeitado
e porque somos um país de muitos e bons costumes
os do costume vão proferir os discursos do costume
e como de costume depois dos aplausos
as femmes de ménage vão bater com toda essa merda no lixo

vivemos tempos de uma estranha obediência
consensos são forjados atrás de consensos
as palavras estão vazias as palavras não valem nada
as palavras estão em vias de reformulação
na boca dos burgessos dos partidos do soutien
uma mama para esquerda uma mama para direita
fartam‑se todos de mamar da grande teta europeia
do não sei quê de progresso de cabrões de vidouros
que vão de braço dado com a divindade do mercado
e o povo de pão e vinho sobre a mesa
em grande marcha até que a miséria lhe doa
celebrará as vitórias sobre as agências de ratting
nesse grande regresso à pátria tão amada

vivemos tempos obscuros
emprenhados de ruído televisão e misticismo
vamos vivendo à distância da vida
porque acreditamos que há um “eles” e um “nós”
e acreditar nisso é acreditar que somos incapacitados
é valorizar a hierarquia como fórmula da sociedade
é aceitar que existe o céu e o inferno
e que só alguns poderão aceder à terra prometida
e assim carneiros sacrificados no altar de qualquer dinheiro
nosso sangue vai enchendo as ruas das cidades
como as areias enchem o vazio dos desertos

eu pecador me confesso
eu não vivi acima das minhas possibilidades

democracia mais salazarismo dá cerca de um século de modorra
sem contar com o resto noves fora nada
não estamos assim tão atrasados em relação á europa
antes pelo contrário vamos à proa vamos pela proa
vamos atados à proa mamando a espuma de todos os dias
esta escória de marcelos e fátinhas de cavacos embalsamados
coelhos carecas portas pirosos seguros para a próxima vida

fogem que se fartam os cérebros para o estrangeiro
mas os carniceiros cheios de soluções não largam o osso
porque são muito caridosos e não sabem onde meter
a grandessíssima pena que sentem dos pobres

porra que filho‑de‑puta que eu sou que não vejo que estou melhor
acordo todos os dias e sinto‑me muito melhor
as florzinhas estão todas cheias de cores muito melhores
estamos aqui numa grande festa do melhor
até camões achou o olho e vê muito melhor
devíamos criar um dicionário um inventário
um programa de televisão um sindicato
onde pudéssemos declamar livremente todas as coisas melhores
que fazem do país um país muito melhor
um 25 um 28 um 605 forte
que nos saia abruptamente sem políticas sem merdas
sem necessidade de confrontar o mais mísero pintelho
da nossa enorme comichão e poder dormir enfim
num jardim num mosteiro num monumento
onde milhares de turistas curiosos poderão fotografar
nós somos portugueses
nós somos o melhor povo do mundo

somos todos uns devassos duns empreendedores
uns entra e sai da sociedade anónima lusitana
tratamos todos o calão da alta finança por tu
há-de vir cá o macdonald’s mostrar o que é vender merda como diamantes
não é qualquer bifana que nos ensina o que é que é ser tenro e saudável
viva a dieta mediterrânica especialmente no cu
é preciso ser‑se qualquer coisa de excepcional em berlim
para aceitar qualquer merda que vos esfreguem nas ventas

portugal país onde o futuro é sempre hoje

a verga do poder quer‑me pôr no lugar
quer que eu ache que estou onde devo estar
quer que existam sempre uns degraus a separar-me do parlamento
degraus que nunca hão‑de ser subidos
um inconseguimento frustracional vazando as arcadas
querem a minha submissão
querem que eu não grite
querem que eu faça sala e cante o hino
enquanto marcha a parada militar
querem que eu não tenha nada a ver com isto
querem que eu vá ao fundo
e lhes faça adeus quando passam de submarino

não não Não
NÃO!
da minha parte nunca haverá uma saída limpa
eu não estou aqui para negociar porra nenhuma
eu quero lá saber das concertações
aquilo que é partido só tem lugar no lixo
eu quero lá saber dos salários mínimos e das horas extra de trabalho
eu quero lá saber da puta das reivindicações que vos foda
dos tambores de lavacolhos do fato–macaco da lisnave
desse azul a que nunca havemos de chegar
eu quero lá saber que coelho é que me vai montar
eu quero é dizer que sou homem
que sou agora
tenho medo mas não tenho vergonha

e é assim que me entrego
e é por isso que estou aqui
a enfrentar o meu medo

25 de abril
40 anos
40 anos a abri‑lo é muito tempo

ponham os cravos na lapela e deixem sair as bandas filarmónicas
lancem os foguetes que alguém há‑de ir apanhar as canas
enquanto os mineiros de aljustrel cantam a grândola ao cavaco

embebedem‑se todos depois do adeus
que eu
muito mais vivo do que morto
não tenho nada para comemorar

terça-feira, 22 de abril de 2014

ai ai ai ai





andamos pr’aqui todos indignados todos revoltados
todos virados ao avesso passamos os dias
a chamar nomes à vida não temos tento na língua
insultamos diariamente os ministros sem perdão
através de um contrato com a televisão

andamos pr’aqui a cuspir sangue da boca
ai a subida do nível do mar e a erosão costeira
ai o papa francisco que veio revolucionar a igreja
ai os biliões de produtos tradicionais que se fazem hoje em portugal
ai os pobres dos costumes com salazar não era assim
isto é só gajas descascadas a lamberem iogurtes
todas muito saudáveis no seu sexy triquini

e depois pronto ai ai ai a autoridade
um gajo chama cabrão a um sacana que é cabrão
e lá se vai a liberdade diluída na expressão em forma de publicidade

temos todos um mural pintamos até fartar
o facebook é a retrete do paradigma social
vazio de vasconcelos faz renda em ponto gigante
à frente do pobre põe-se a miséria em forma de elefante

ai ai ai ai não seja tão radical
se a sua vida é uma merda é para o bem nacional

o menino tem que fazer parte de um grupo e achar a sua espiritualidade
que isso de ser poeta é muito pouco empreendedor
veja lá se não quer ser exportado porque neste país
o que não faltam são poetas que sabem trazer a boca fechada

ai ai ai ai que o peixoto ainda se caga tordo
antes de ser abatido batendo uma pívia ao pai
e o viegas levantado da tumba ainda o manda tomar no cu
e assim o menino nunca levará um 8,5 na escala do silva

ai ai ai ai que isso que vai para aí são demasiadas metáforas
e toda a gente sabe que as metáforas são inimigas da realidade
estávamos aqui tão bem sentados no café a contar as gaivotas
com as nossas tesouras tristes a cortar a prosa interna
e o menino vem para aqui falar assim cheio de pretensões
-zinhas

olhe que é importante controlar os sentimentos
nenhum poeta moderno cai na veleidade do momento
você vive longe do centro e só se queixa da sua infelicidade
deve ter uns resquícios de futurismo agarrados às unhas dos pés
um 61 armado escarafunchando na peruca
deve ter aí um aleixo a dar lhe uma comichão qualquer

ai ai ai ai veja lá se não leva uma palmada na mão
até à sua família as drogas causam confusão
veja lá bem com quem o menino quer discutir
é que nós aqui já somos
e nenhuma égua ficou por cobrir

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A light exercise over this

fala muito tudo fala fel fuli
o que o país precisa isa iva tiva
esse regresso aos mercados uvas teve-as
meu desgosto este
meu chão pisado
o preço pago a estadia o estádio
o bilhete o ingresso
 a escolha o registo do passado
o sintoma de tanta fúria tão ingrato
o pesadelo a vertigem
a mulher nunca despida
a flor negra que escorre
o sangue demente
edifica o asfalto

ai vida
as tuas horas além da muralha
os nimbos sobre o céu do teu leito
escolhem medonha e madura
a fronha acesa do teu medo

para isto
nascidos para isto
mortos para isto
como num paraíso
a contar as horas que não chovem
a agradável sorte que tantos sonharam
a fome escondida dos pobres
a língua silenciosa da miséria
a caridade vã
dá-me para isto

um inferno de homens não cumpridos
alimenta a natureza vaga das pessoas
a violência pornográfica da ortografia
serve para ampliar a agonia
serve para nos limitar a isto

à perda como um consolo
à fome como estado de transição
ao esvaziamento como um relâmpago
o que estrondosamente fura o coração

porque escolheram isto
aparam as barbas
nunca resvalam lâminas

hão-de me ouvir
porque por isto não me calam

sempre estarei sobre esta areia
a vasculhar as sobras da merda que fizeram
passos que nunca darás
uns colhões do tamanho do meu estado

sábado, 23 de novembro de 2013

camões reloaded

mudam-se os tempos mudam-se as verdades
muda-se o poder muda-se a sentença
toda a história é feita de mudança
trazendo sempre novas iniquidades

todos os dias temos novas liberdades
empreendemos a carroça da esperança
do sacrifício ficará a negra dança
do proveito (que não houve) atrocidades

este tempo tira o chão exorta ao pranto
e mais não sendo que minha fantasia
assim acendo a arma do meu canto

e agora que não pára que é sempre dia
que tudo extrema velocidade e tanto
destas palavras minha pátria eu partia

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

24OUT13

o nosso amor não tem fim
essa é a grande verdade

assim como a água sulca as rochas
na sua passagem indiferente ao tempo
nós
os menos
os nada
havemos de ir ficando


geramos fértil descendência

sábado, 8 de junho de 2013

mal passado, e é só nervo e gordura


esta paisagem é o sangue nas veias da multidão
um enlouquecer sem saber que se enlouquece
um dormir sem sono um estar sem ser um desejo
no vácuo silêncio de horas infindas e perturbadas
uma demora uma espera um não alcançar nunca
uma resignação dolorosa mas que não dói
porque as coisas que doem são quedas e mãos cortadas
acidentes nas estradas e mulheres violadas nas esquinas

a fome já não dói porque é assim de tempos em tempos
as pessoas têm que saber qual é o seu devido lugar
o euromilhões faz excêntricos mas não faz rotchildes
porque só os rotchildes é que fazem rotchildes
e só os cavacos é que dão bailes em belém

a culpa da fome é dos burros e dos parvos sem poder de compra
dessa gentinha que pediu demasiado aos bancos
desses ignorantes que nem 100 euros fazem a vender pipocas
desses putos cheios de merda na cabeça
que não são capazes de vender a sua juventude
bergessos desde tenra idade que não torcem o pepino
a quem falta o berço na linha do estoril

seus brutos incapazes de plantar uma alface
energúmenos impotentes que nem sequer uma empresa criam
ou andam todos à mama do fundo de desemprego ou querem
todos trabalhar ao mesmo tempo e é por isso que não há trabalho

deves de andar a gozar com isto meu classe média baixa de merda
tanta gente empreendedora a injectar dinheiro nos bancos
e tu não largas o conforto dos teus 485 euros
andas a vender pregos ferrugentos nas feiras de velharias
enquanto podias estar limpar latrinas em frança
andas a plantar batatas ao lado do ic19
enquanto podias trabalhar na construção civil em angola

andas andas mas não fazes a ponta dum corno
fazes greve na cp que é p’rós outros não irem trabalhar
egoísta que és só contribuis para a queda das exportações
até foste ao bruxo de fafe fazer uma mezinha p’ra que não chova
só porque há falta de causas naturais
és capaz de não incluir no irs a farmácia toda
mas nunca foste fazer um ppr na holanda

andas é a fazer que dormes na sombra
tu é que a sabes toda
os cérebros fartam-se com fugir para o estrangeiro
e tu deixas-te ficar para trocar os números do primeiro trimestre
e depois o ministro é que fez mal as contas no excel
e ainda apresentas uma queixa na deco contra a microsoft

tu só queres é empatar estes entes caridosos
que mesmo em tempos de dificuldade
têm sempre a graça de te atirar um osso

quinta-feira, 6 de junho de 2013

PEIXE P'A FRITAR (QUE OU É PEQUENO OU ESTÁ MAGRO)

sou um malandro sou
eu que o digo sou
defensor de uma certa preguiça
sem dúvida mau empreendedor
sou carne feita p’ra queimar
disposto que estou a coisas execráveis
ténues são os limites
da minha civilidade

sou o que gosto de pensar que sou
a teimosia irónica que refreia
o asqueroso bafo do poder

sou aquilo que sei que
entre a escória
a vergonha vos há‑de lembrar


***

acredito que as pessoas voam
mas isso é tudo dentro
dos aviões

os gatos passeiam espinhas
o focinho do cão convive
branco felizmente

um pé d’alecrim pegou
uns tomates amadureceram
há coisas que vejo que são

mas outras porra se as há
que nenhum cabrão me convence a comprar


***


“Que queres fazer quando fores
grande ò menino?”

nada
não quero ser nada desde pequenino

há 32 anos que o meu coração bate
é isso que sou
sem parar

terça-feira, 30 de abril de 2013

opinião púdica


a opinião pública é uma coisa linda de se fazer
e parece-me sempre puta uma simulação
do amor a vir-se entre a pornografia uma coisa
que não se sabe se se tem porque é pública

a opinião pública é feita de palavras especiais
repetidas repetidamente imagens sobre imagens
sobre rodapés de efeitos especiais
num festival de distracções são espuma são dias
são ressaca na cabeça as vacas da doutrina

a televisão é uma private dance
cada um escolhe a puta que quer ver a dançar
e dança com ela e vem-se de argumentos
delírios invertebrados palavras brochistas
nos lábios sensuais da vassalagem

a opinião pública é feita por especialistas
pessoas tocadas por qualquer coisa de especial
gente que sabe onde meter artigos definidos
que mastiga as palavras e nos escarra sem vergonha
na cara

os melhores especialistas tem belas carreiras
e nunca são apedrejados porque são idóneos
os melhores especialistas são especialistas em tudo
são capazes de dizer tudo são prós
a fazer de contra que dizem muito que dizem
que estão a dizer alguma coisa

páginas amarelas de opinião pública
ruminação constante e foda colectiva
desertos desinformantes
pintelhos de incineração linguística
chavões são palavrões na boca de ministros
palavras púbicas empalantes

anestesias gerais fenómenos
virais vontades de mijar
chaminés adentro
fumo brando no parlamento
mais um pacote corta
que o estado lubricula
orçamentos de tesão rompante
peitos de política com leite

vem-te
colectivamente no ministério das finanças
brochuras de programas de enculações
ejaculantes dinheiros públicos
que enfardam comentaristas
completamente isentos e arbitrários
virgens sem partido embalsamadas

em prime-time meu banco de portugal
conservas o esperma fascista
essa operação plástica de tele‑anunciação
exporta-me a alma e o verbo
cresce-me a ponta da economia

harpias costurando óperas de operações
revitalizantes investimentos share
all together now numa boa

línguas especialistas a lamber as conas do poder
judites orais como barbies no inverno
travestis por círculos enquadrados
enrabam-se mamas implantadas
cilicoces férteis do vale caravelas
da boa esperança

e a menina dança ao som do cu toma viegas?
e a família também?
champôlimão lava-me os cabelos escravos
expo lusi pontalhadas
PêPêPêPêPêPês
Põe põe põe põe põe põe
magalhães na sopa e parque escolar para as crianças brincarem

feira da praga em são bento
constituições para todos os feitios
que fariam chorar o marquês do pombal
a cagar sobre a capital inteira
sobre todas as capitais sem deixar impune
a mais imune pintelheira
bruxelas de directivas comunitárias
setenta vezes o coito luxuriante
da vanguarda do pensamento mediático

meu deus que quisto pariste
onde é que eu vi quelque coise come ça
primos e primas e tios e tias e o pai
a chafurdar nos telejornais
que a vida mais parece uma sequela
das séries de tráfego ilimitado

tremenda lusa tusitana
os céus são do sul
cócos de caniche very Vilamoura
jotinhas cascos à linha do estoril
cheiram marmeladas escandaleiras
mas sempre com classssssse

assoa-te à renda de bilros e vota no antigripal
come sardinha na páscoa evita o pecado carnal
a selecção joga em telavive com fio dental
icebergue de pastilhas mental
afunda versos santa maria de planfetos
aviões desviados de rabat
25 de novembro armada USA
camões no tejo dispara do sovaco
bombocas a vulso poliuretano farfalheira
desastre de poema na via publica
amiantos de boas intenções
pede-se presença permanente da protecção
à civis com raiva especulativa
manobras oníricas festivais pimba
sortidos de bolachas caseiras
e mais putas que estas só nas cimeiras
as que mostram a xôxa a rir

quinta-feira, 11 de abril de 2013

na'é filho?


somos todos muito pacíficos na’é filho?
fazemos cartazes criativos p’rás manifestações
levantamos o punho fechado com o cravo podre do abril
sitiamos o parlamento e não atiramos pedras

vem a bófia atirar pedras por nós
p’ra nos desancar à porrada dos pacíficos que nós somos

fazemos muito bem em ser pacíficos filho
porque a austeridade não é uma coisa que ande
aí pelas ruas a apontar pistolas à cabeça das pessoas

ninguém tem hemorragias com 20% de desemprego
ninguém perde um braço quando a casa é hipotecada
nem uma puta duma contusão por cada milhão que vai p´ra banca

nada de violências que esta gente sabe muito bem o que faz
foram todos eleitos democraticamente
são gatunos mentirosos impostores criminosos
mas eleitos democraticamente porra
na’é filho?

fazemos as grandes manifestações e cantamos a grândola
e depois vamos p’ra casa beber chá e comer torradas
ver se aparecemos nas televisões muito pacíficos e ordeiros

isto agora o que é preciso é ter calminha da boa
que eles tratam de tudo e trocam tudo por miúdos
agora o que é importante é o papa porque neste país não se passa nada
está um frio do caralho mas o verão está já à porta
e tu vais contar os tostões p’ra tirar umas férias
pacificamente

mas o que é que a gente há-de fazer filho é assim
isto é só likes e tweets e grupos
que mandam caralhadas nas redes sociais
e se isso não resolve nada o que é que resolve?

os teus pais até foram às revoluções por ti

deixa-te andar
deixa-te andar pacificamente
ou não tens nada p’ra dizer
ou não votaste neles
e quem votou que se desenrasque
e quem vier atrás que feche a porta

mas o que é que tu vais fazer filho?
meter bombas em sucursais bancárias?
mostrar o cu no parlamento?
arriscares-te a ir preso?

não vale a pena porque isto é assim e assim vai continuar
uns a fazer de revoltados e eles contentes a mandar
porque tu não mandas nada és empregado
e só vives porque te deixam e o demais não interessa
que eles é que percebem do que tu precisas
na’é filho?

quem tem cu tem medo
e eles entram sempre pela porta das traseiras
esses senhores que estão acima do crime
os que vivem em cima das tuas possibilidades

vais-me dizer que não é assim tão simples
e eu concordo contigo não posso dizer que não
além da cabeça do ministro
muitas outras terão de ser cortadas sem perdão

vais-me dizer que isso é violento que isso não é pacífico
e eu concordo contigo não posso dizer que não
mas diz-me
não há violência nenhuma na pobreza e na miséria
com que o um por cento vive refastelado?
isto tem que ser tudo um sacrifício filha-da-puta
que aos 65 anos há-de ser o céu
na’é filho?

terça-feira, 19 de março de 2013

é altura de os tratar pelo seu devido nome


isto não é incapacidade
isto não é incompetência
isto não é falta de coerência
isto não é falta de bom senso

nenhum deles anda a fazer de conta
que não sabe o que está realmente a fazer

é altura de os tratar pelo seu devido nome

banqueiros presidentes ministros
fascistas partidos
não são mais do que inimigos
e têm de ser tratados como tal

devemos perdoar a arrogância?
dever não devemos
mas perdoar perdoamos

quinta-feira, 14 de março de 2013

ARROMBEM-SE ESSES PORTÕES DERRUBEM-SE ESSAS MURALHAS

(para o Pedro Afonso, para o Miguel Godinho)



na sociedade mais desenvolvida de sempre
no tempo da tecnologia mais capaz
nas forjas da indústria mais potente
há pessoas que passam fome
e toneladas de comida são jogadas fora

arrombem-se esses portões
derrubem-se essas muralhas

os mais sofisticados da história
os que construíram os prédios mais altos
albergues da mais fétida glória
deixam na fria noite capitalista
alimentados a sopinha caridosa
enrolados em cartões como presentes
milhões de gente que morre
à porta de casas apodrecendo

arrombem-se esses portões
derrubem-se essas muralhas

senhores que pregam a paz e a compaixão
supostamente espalham a palavra da bondade
nos seus palácios seculares já têm o cu quadrado
de tão sentados nos seus tronos dourados
abominam perversos na sua castidade

arrombem-se esses portões
derrubem-se essas muralhas

a culpa nunca é deste governo
é sempre do outro
é sempre do burro do povo
e esses senhores do parlamento
fazem reuniões à porta fechada
escolhem os mais belos orçamentos
inventam fantásticos investimentos
plantam mais uma fértil estrada
para que passe mais depressa
a miséria que para nós têm guardada

arrombem-se esses portões
derrubem-se essas muralhas

depois dos barões da droga
no distante terceiro mundo
temos também barões da banca
louvando o desastre especulativo
existem muitos e gordos sacanas
dizendo que o pobre é preciso
para alimentar o podre do vício
à moda do frankofurto
salsicha no lugar de chouriço

arrombem-se esses portões
derrubem-se essas muralhas

bem sentadas no circo democrático
as esquerdas doutoradas
votam contra a maioria
legitimam a grande farsa
piscam o olho à direita
já a pensar nas autárquicas
oposição que se opõe
não serve interesses partidários
oposição que se opõe
não vai p’ra cama com eles
negociar as migalhas

arrombem-se esses portões
derrubem-se essas muralhas

esta é a minha justiça
carrego a arma da palavra

arrombem-se esses portões
derrubem-se essas muralhas

quarta-feira, 13 de março de 2013

isto sim é que é um conclave


o primeiro-ministro diz que ideal era baixar os salários
e não estava a falar dos seus coleguinhas nem dos deputados
nem dos secretários de estado nem dos assessores
nem consultores nem presidentes de conselhos administrativos

estava a falar de homens que mal pagam a sua vida

o presidente da república explica-se no seu silêncio
para não interferir na vida democrática do país
entenda-se que vida democrática têm
seus afilhados neste país veja-se
quantos negócios estão a florir

a arrogância não conhece limites

não é com grândolas que se resolvem as coisas
se os sem-abrigo aguentam muitos mais hão-de aguentar
dizem mamões de papo cheio do alto dos seus milhões

isto sim é que é um conclave
chaminés a mandar fumo o dia inteiro
na televisão notícias todas em estrangeiro

e as manifestações oh as manifestações
quando será que perdem o respeito

sábado, 9 de março de 2013

ATÉ QUE SEJAM DESTRUÍDOS


cheiram a pólvora os amplos corredores
as salas com mobília do século dezanove
aqueles átrios de mármore com longas cortinas de fundo
ocultando os emblemas das empresas
atrás dos símbolos nacionais ecoa
o cheiro antigo do sangue

andam bestas à solta que vestem armani
quando falam de sacrifício falam de deus
quando falam da miséria falam de darwin
e o esterco noticiário é um gás mostarda
que me põe a vomitar ao canto da insolvência

o chicote já não estala
temos todos carta de alforria
e seguem homens nas ruas dizendo não aos filhos
e quem ganha é a nestlé que vende muito nestum

peçonha é ao que a vida tresanda
uma montanha de papéis p’ra preencher
onde nos fazem perecer um a um mil a mil
ao frio dos tempos e dos pós modernos

os palácios dos governantes de hoje
são os palácios dos governantes de ontem
e hão-de sempre cheirar a sangue
até que sejam destruídos

sexta-feira, 8 de março de 2013

VOCÊS VOCÊS VOCÊS


vocês têm brutos ordenados
reformas vitalícias belas vivendas belos carros
têm muitos e bons negócios privados
vocês têm bons fatos e relógios dourados
vocês têm o estado
vocês têm a estatística e a televisão
vocês têm sempre maneira de justificar a podridão

vocês têm as polícias e os tribunais
vocês têm filhos com contas em paraísos fiscais
vocês trazem a lei nos bolsos
e fazem-nos viver com meia-dúzia de trocos
vocês querem refundar a constituição
para foder legalmente o cidadão

vocês vão para o dubai e p’ró rio de janeiro
fazer o negócio que é do interesse nacional
são as nossas mais valias o investimento musculado
levantar a economia na liberdade do mercado
mas o “nós” que vocês dizem tem o prato p´lo cagulo
vocês não têm vergonha vocês só querem dinheiro
vocês são putas que chulam um país inteiro

p’ra vocês isto é igual ao litro é tudo como o outro
abriu no ministério mais uma pasta p´ra mentiroso
vocês têm marcelos p’ra mostrar que isto é normal
vocês têm jotinhas a espumar da boca carreiras
nas colunas do jornal no comentário intelectual
vocês têm sangue nas algibeiras

vocês são a grandessíssima cópula dos partidos
uma procissão dos santos mais vendidos
vocês são os salgados e os belmiros
são toda a gente que aqui anda a pensar se dá p’ra ter filhos

vocês são fachos
são a luz ao fundo da cultura do tacho
vocês são a inversão e a retoma
porque o fmi não é coisa que entre em qualquer cona
vocês são o regresso aos mercados
toda uma gama de produtos reciclados

vocês são os índices dos observatórios dos institutos
das fundações das ajudas dos empréstimos dos prolongamentos
das leituras a tirar das viragens do há coisas
que não podem ser faladas em público

vocês vocês vocês vocês vocês
vocês é que são o défice

quinta-feira, 7 de março de 2013

PEDRAS PAUS PALAVRAS


basta de papas na língua
o que eu quero é tudo a arder
o que eu quero é ver quem vos jogará a mão
no dia em que se acabar a submissão

basta!
eu não vim aqui para ser a parte fraca
porque de onde eu venho não há sim nem não
lutar é a minha condição

pedras paus palavras
homens sem vergonha e sem raça
homens fodidos com o que se passa
homens-fúria que rebentaram a mordaça
homens que só querem ser homens
homens que digam BASTA!

pedras paus palavras
facas na vossa garganta

terça-feira, 5 de março de 2013

O MEU PAÍS...


o meu país é a lei da aparência
uma simulação ateada nos corredores da política
com a inspecção em dia certificada
pelos agentes do mercado financeiro
neste tempo em que todos os problemas
boiam entre a merda da culpa em que vivemos
acima das nossas possibilidades

o meu país é onde eu nunca andei de submarino
onde as novelas ensinam que há patrões e empregados
para que o cidadão pequenino do meu país perceba
que deus põe sempre a mão por baixo

o meu país é um país moderno
é um país que abraçou a união e o progresso
com vários políticos muito bem sucedidos
e muitos e bons empreendedores activos
e eu tenho muito orgulho no meu país
que é muito livre e democrático

o meu país é o país onde se diz
que há falta de liberdade de expressão
quando se manda calar um criminoso

o meu país é uma caldeirada
leva pouco peixe e muita batata

o meu país é o da turma da gravata
onde há vergonha de cantar o que nos mata

o meu país é onde é necessário
trabalhar mais e receber menos salário
onde é preciso pagar tudo mais caro e aguentar
porque os heróis são aqueles que mais aguentam
em nome do bem e da virtude que é
viver assim num país feito de miséria

o meu país é o país dos quatro efes
fado futebol fátima e que se fodam
aqueles que não aguentam a austeridade boa

o meu país é uma questão de família
o pai a pátria o partido
estás aqui e aguentas porque és preciso
vais trabalhar uma vida e ser enterrado vivo
mas descansa que é o céu e p’rós teus filhos
hão-de vir os filhos deles p´ra lhes mostrar o caminho

o meu país é uma fronteira que arde sem se ver
que é funda e que dói e não se sente
pois p’ra sentir é preciso ser mais que gente
que ganha roubando dizendo que tem de ser

o meu país é o que trago vestido
é o sono que não tenho dormido
a chuva ácida que dissolve as cidades
o flagelo da consolidação a factura
que declara o imposto

o meu país é aquilo que eu não posso ser
porque ser feliz agora seria contrariar
o psi 20 o preço da gasolina e as promoções
com que os jerónimos martins ajudam o pobrezinho
e temos todos que aguentar
qual nau em busca de novos mundos

o meu país é o que exporta as pessoas
que não conseguem pagar a sua vida

o meu país é o do trabalho
onde o povo é mercadoria p’ra vender ao desbarato

o meu país é o da esperança
onde qualquer puta dança ao som do bom dinheiro

o meu país tem uma voz
a que está hoje nas ruas do meu país inteiro