quarta-feira, 9 de abril de 2014

TRÊS INCURSÕES

(ressaca)

grito na escura humidade
rodopio na estação infernal
está tudo ácido derretido

vergo-me à pressão
na dispersante obscuridade
desta janela infinita

e no vazar do copo
deste fruto destilado
desaparecem-me as pernas

sou qualquer coisa‑metade
de passagem pela grande rua
sem me conseguir apanhar

***

(H.)

dá para matar bastante
uma flecha prateada
apontada à fantasia

os peixes de bicicleta
na lua fazem as mães
chorar muito mais alto

os índios quando cantam
abrem uma porta de fogo
e é por ela que passam

tudo sempre se esvazia
e por refinado que seja
lirismo não mata a fome


***

(adeus)

tenho este mel na boca
estalando a lágrima feliz
eu quero despedir‑me em paz

num tremor para o fim da agonia
o horizonte vai‑me rasgar o peito
já não posso adiar esta emoção

é grande o oceano que me chama
para dentro do calor maternal
que dura a própria essência da vida

eu já não estou eu já fui
na canoa verde dos índios
eu não posso adiar a coração

terça-feira, 1 de abril de 2014

FALAM FALAM FALAM MAS O ACORDO ORTOGRÁFICO JÁ ESTÁ A SER APLICADO NA OUTRA MARGEM DO ATLÂNTICO


UMA ESPÉCIE DE TRANSGÉNICO, MEIO JUDITE, MEIO MARCELO




AS 1001 NOITES DE SEVERA ESCURIDÃO, QUE EM BRASILEIRO FICA MUITO MAIS LEVE E SENSUAL. TESÃO P'Á CARALHO!

quarta-feira, 26 de março de 2014

quinta-feira, 6 de março de 2014

2 POEMAS ABERTOS AO REGIME, SALIVA

exorto à primavera que desponta
na erva fofa que cobre os prados
escutando chilrear os pássaros
resmalha-me um regato na boca
e é por isso que em ti penso coelho
correndo para minha toca

dão-te caça a torto e a direito
mas tu   único e verdadeiro
és um coelho muito esperto

cada palavra tua uma luz divina
que se entorna por mim adentro

tens perdido cabelo
isso que dizem é só inveja
corre para a minha toca coelho
que eu coço-te a careca


***



no longo frio do inverno
se se assoma a névoa da incerteza
enxugo as lágrimas do medo
e prendo ao quentinho do meu pensamento
os teus discursos sobre crescimento

és duma língua empreendedora
esgalhas tão bem as palavras
quando à coragem portuguesa teces loas
ardem-me os peitos quais fagulhas

ergues alto o mastro da nação
seguem-te muitos capitães
com a brava espada na mão

não me amansa a fera
a pena do poeta peço-te
do alto da sofreguidão
coelho quando possas
refunda-me a constituição

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

há uma troika dentro de mim

não consigo explicar a felicidade
que me trazem as vozes inequívocas
da inquestionável sabedoria imperial

tenho andado pela noite a contar tostões
sem saber o que fazer desta tremenda insónia
com os olhos desfeitos em sangue
porque tenho guardado o pranto

e num segundo de luz abissal e virtude
vou dando passos e sinto‑me seguro
porque o país está muito melhor

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

DIÁRIO DE BORDO

a chuva tem uma música que eu consigo ouvir
uma magia meteorológica carregada no cinzento
que se aprende a olhar o tempo nos olhos duma
criança pendurada à janela na tarde de domingo
enquanto não chega o sono e a escola não começa
demoramos a crescer fazendo trabalhos de casa
damos por nós a brincar e há uma vida inteira que passa

adiando o despertador minuto a minuto
o cheiro das torradas faz‑nos salivar na cama
e com dez anos começamos a beber café
e dez anos mais tarde somos a mesma criança
o sono a chuva as tardes de domingo
que nunca conseguimos preencher

põe‑lhe mais dez anos em cima
e o que mudou foi o tamanho da roupa
e agora brincamos como gente grande
todos os trabalhos ainda são de casa
não temos testes mas aquilo que nos aconteceu
pode ser que nos dobre a broa d’asperança


***

aqui a bordo vamos todos bem
porque não existe mais do que este barco
e ainda conseguimos ir todos dentro dele
e na verdade a grande luta que travamos
é esta vontade de fugir acometida ao infinito

podemos pensar que passa mas ao largo
não existem os mínimos sinais de terra
e até as baleias fogem de nós
enterrámos definitivamente o azul

vamos todos bem mas somos um perigo
somos o escuro mais duro do destino
a mancha salgada nas cartas de navegação
que nenhum astrolábio consegue resolver
e todas as mães continuam a chorar


***


o mito é a moca que faz o futuro
a ânsia que faz as nações perdurar
o espectro da grandeza a simulação
o fantasma intermitente da obscuridade

sem que a nefasta sombra nos tombe
e por ventura admiremos na dureza
os tratados que nos dizimaram aos milhares
havemos de continuar navegando

o mar só tem duas coisas certas
a volta ou o não voltar


a história só tem uma

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A light exercise over this

fala muito tudo fala fel fuli
o que o país precisa isa iva tiva
esse regresso aos mercados uvas teve-as
meu desgosto este
meu chão pisado
o preço pago a estadia o estádio
o bilhete o ingresso
 a escolha o registo do passado
o sintoma de tanta fúria tão ingrato
o pesadelo a vertigem
a mulher nunca despida
a flor negra que escorre
o sangue demente
edifica o asfalto

ai vida
as tuas horas além da muralha
os nimbos sobre o céu do teu leito
escolhem medonha e madura
a fronha acesa do teu medo

para isto
nascidos para isto
mortos para isto
como num paraíso
a contar as horas que não chovem
a agradável sorte que tantos sonharam
a fome escondida dos pobres
a língua silenciosa da miséria
a caridade vã
dá-me para isto

um inferno de homens não cumpridos
alimenta a natureza vaga das pessoas
a violência pornográfica da ortografia
serve para ampliar a agonia
serve para nos limitar a isto

à perda como um consolo
à fome como estado de transição
ao esvaziamento como um relâmpago
o que estrondosamente fura o coração

porque escolheram isto
aparam as barbas
nunca resvalam lâminas

hão-de me ouvir
porque por isto não me calam

sempre estarei sobre esta areia
a vasculhar as sobras da merda que fizeram
passos que nunca darás
uns colhões do tamanho do meu estado

sábado, 23 de novembro de 2013

camões reloaded

mudam-se os tempos mudam-se as verdades
muda-se o poder muda-se a sentença
toda a história é feita de mudança
trazendo sempre novas iniquidades

todos os dias temos novas liberdades
empreendemos a carroça da esperança
do sacrifício ficará a negra dança
do proveito (que não houve) atrocidades

este tempo tira o chão exorta ao pranto
e mais não sendo que minha fantasia
assim acendo a arma do meu canto

e agora que não pára que é sempre dia
que tudo extrema velocidade e tanto
destas palavras minha pátria eu partia

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

24OUT13

o nosso amor não tem fim
essa é a grande verdade

assim como a água sulca as rochas
na sua passagem indiferente ao tempo
nós
os menos
os nada
havemos de ir ficando


geramos fértil descendência