VERSÃO HARLEM SHAKE
quinta-feira, 8 de maio de 2014
quinta-feira, 24 de abril de 2014
POEMA COMEMORATIVO DOS 40 ANOS DO 25 DE ABRIL

dedicado ao José Mário
Branco, dedicado aos que nunca se renderam e que nunca se renderão
já gastaram
um balúrdio em cravos
enfeitaram tudo
muito bem enfeitado
e porque
somos um país de muitos e bons costumes
os do
costume vão proferir os discursos do costume
e como de
costume depois dos aplausos
as femmes de ménage vão bater com toda essa merda no lixo
vivemos
tempos de uma estranha obediência
consensos
são forjados atrás de consensos
as palavras
estão vazias as palavras não valem nada
as palavras
estão em vias de reformulação
na boca dos
burgessos dos partidos do soutien
uma mama
para esquerda uma mama para direita
fartam‑se
todos de mamar da grande teta europeia
do não sei
quê de progresso de cabrões de vidouros
que vão de
braço dado com a divindade do mercado
e o povo de
pão e vinho sobre a mesa
em grande
marcha até que a miséria lhe doa
celebrará as
vitórias sobre as agências de ratting
nesse grande
regresso à pátria tão amada
vivemos
tempos obscuros
emprenhados de
ruído televisão e misticismo
vamos
vivendo à distância da vida
porque
acreditamos que há um “eles” e um “nós”
e acreditar
nisso é acreditar que somos incapacitados
é valorizar
a hierarquia como fórmula da sociedade
é aceitar
que existe o céu e o inferno
e que só
alguns poderão aceder à terra prometida
e assim
carneiros sacrificados no altar de qualquer dinheiro
nosso sangue
vai enchendo as ruas das cidades
como as
areias enchem o vazio dos desertos
eu pecador
me confesso
eu não vivi
acima das minhas possibilidades
democracia
mais salazarismo dá cerca de um século de modorra
sem contar
com o resto noves fora nada
não estamos
assim tão atrasados em relação á europa
antes pelo
contrário vamos à proa vamos pela proa
vamos atados
à proa mamando a espuma de todos os dias
esta escória
de marcelos e fátinhas de cavacos embalsamados
coelhos
carecas portas pirosos seguros para a próxima vida
fogem que se
fartam os cérebros para o estrangeiro
mas os
carniceiros cheios de soluções não largam o osso
porque são
muito caridosos e não sabem onde meter
a
grandessíssima pena que sentem dos pobres
porra que
filho‑de‑puta que eu sou que não vejo que estou melhor
acordo todos
os dias e sinto‑me muito melhor
as
florzinhas estão todas cheias de cores muito melhores
estamos aqui
numa grande festa do melhor
até camões
achou o olho e vê muito melhor
devíamos
criar um dicionário um inventário
um programa
de televisão um sindicato
onde
pudéssemos declamar livremente todas as coisas melhores
que fazem do
país um país muito melhor
um 25 um 28
um 605 forte
que nos saia
abruptamente sem políticas sem merdas
sem
necessidade de confrontar o mais mísero pintelho
da nossa
enorme comichão e poder dormir enfim
num jardim
num mosteiro num monumento
onde
milhares de turistas curiosos poderão fotografar
nós somos
portugueses
nós somos o
melhor povo do mundo
somos todos
uns devassos duns empreendedores
uns entra e
sai da sociedade anónima lusitana
tratamos
todos o calão da alta finança por tu
há-de vir cá
o macdonald’s mostrar o que é vender merda como diamantes
não é
qualquer bifana que nos ensina o que é que é ser tenro e saudável
viva a dieta
mediterrânica especialmente no cu
é preciso
ser‑se qualquer coisa de excepcional em berlim
para aceitar
qualquer merda que vos esfreguem nas ventas
portugal
país onde o futuro é sempre hoje
a verga do
poder quer‑me pôr no lugar
quer que eu
ache que estou onde devo estar
quer que
existam sempre uns degraus a separar-me do parlamento
degraus que
nunca hão‑de ser subidos
um
inconseguimento frustracional vazando as arcadas
querem a
minha submissão
querem que
eu não grite
querem que
eu faça sala e cante o hino
enquanto
marcha a parada militar
querem que
eu não tenha nada a ver com isto
querem que
eu vá ao fundo
e lhes faça
adeus quando passam de submarino
não não Não
NÃO!
da minha
parte nunca haverá uma saída limpa
eu não estou
aqui para negociar porra nenhuma
eu quero lá
saber das concertações
aquilo que é
partido só tem lugar no lixo
eu quero lá
saber dos salários mínimos e das horas extra de trabalho
eu quero lá
saber da puta das reivindicações que vos foda
dos tambores
de lavacolhos do fato–macaco da lisnave
desse azul a
que nunca havemos de chegar
eu quero lá
saber que coelho é que me vai montar
eu quero é
dizer que sou homem
que sou
agora
tenho medo
mas não tenho vergonha
e é assim
que me entrego
e é por isso
que estou aqui
a enfrentar
o meu medo
25 de abril
40 anos
40 anos a
abri‑lo é muito tempo
ponham os
cravos na lapela e deixem sair as bandas filarmónicas
lancem os
foguetes que alguém há‑de ir apanhar as canas
enquanto os
mineiros de aljustrel cantam a grândola ao cavaco
embebedem‑se
todos depois do adeus
que eu
muito mais
vivo do que morto
não tenho
nada para comemorar
quarta-feira, 23 de abril de 2014
e traz a troika também
o desespero
é a morte dos fracos
dos pobres
de espírito
dos
esquecidos da história da nação
sombra
alarve dos tempos
quando ao
pensar o homem mina
os caminhos
da união
saber seguir
é ser livre
e aceitar o
duro sacrifício
porque deus
quer
uns homens
sonham
e os outros
trabalham
terça-feira, 22 de abril de 2014
ai ai ai ai

andamos pr’aqui todos indignados todos revoltados
todos virados ao avesso passamos os dias
a chamar nomes à vida não temos tento na língua
insultamos diariamente os ministros sem perdão
através de um contrato com a televisão
andamos pr’aqui a cuspir sangue da boca
ai a subida do nível do mar e a erosão costeira
ai o papa francisco que veio revolucionar a igreja
ai os biliões de produtos tradicionais que se fazem hoje em portugal
ai os pobres dos costumes com salazar não era assim
isto é só gajas descascadas a lamberem iogurtes
todas muito saudáveis no seu sexy triquini
e depois pronto ai ai ai a autoridade
um gajo chama cabrão a um sacana que é cabrão
e lá se vai a liberdade diluída na expressão em forma de publicidade
temos todos um mural pintamos até fartar
o facebook é a retrete do paradigma social
vazio de vasconcelos faz renda em ponto gigante
à frente do pobre põe-se a miséria em forma de elefante
ai ai ai ai não seja tão radical
se a sua vida é uma merda é para o bem nacional
o menino tem que fazer parte de um grupo e achar a sua espiritualidade
que isso de ser poeta é muito pouco empreendedor
veja lá se não quer ser exportado porque neste país
o que não faltam são poetas que sabem trazer a boca fechada
ai ai ai ai que o peixoto ainda se caga tordo
antes de ser abatido batendo uma pívia ao pai
e o viegas levantado da tumba ainda o manda tomar no cu
e assim o menino nunca levará um 8,5 na escala do silva
ai ai ai ai que isso que vai para aí são demasiadas metáforas
e toda a gente sabe que as metáforas são inimigas da realidade
estávamos aqui tão bem sentados no café a contar as gaivotas
com as nossas tesouras tristes a cortar a prosa interna
e o menino vem para aqui falar assim cheio de pretensões
-zinhas
olhe que é importante controlar os sentimentos
nenhum poeta moderno cai na veleidade do momento
você vive longe do centro e só se queixa da sua infelicidade
deve ter uns resquícios de futurismo agarrados às unhas dos pés
um 61 armado escarafunchando na peruca
deve ter aí um aleixo a dar lhe uma comichão qualquer
ai ai ai ai veja lá se não leva uma palmada na mão
até à sua família as drogas causam confusão
veja lá bem com quem o menino quer discutir
é que nós aqui já somos
e nenhuma égua ficou por cobrir
quarta-feira, 9 de abril de 2014
TRÊS INCURSÕES
(ressaca)
grito na escura humidade
rodopio na estação infernal
está tudo ácido derretido
vergo-me à pressão
na dispersante obscuridade
desta janela infinita
e no vazar do copo
deste fruto destilado
desaparecem-me as pernas
sou qualquer coisa‑metade
de passagem pela grande rua
sem me conseguir apanhar
***
(H.)
dá para matar bastante
uma flecha prateada
apontada à fantasia
os peixes de bicicleta
na lua fazem as mães
chorar muito mais alto
os índios quando cantam
abrem uma porta de fogo
e é por ela que passam
tudo sempre se esvazia
e por refinado que seja
lirismo não mata a fome
***
(adeus)
tenho este mel na boca
estalando a lágrima feliz
eu quero despedir‑me em paz
num tremor para o fim da agonia
o horizonte vai‑me rasgar o peito
já não posso adiar esta emoção
é grande o oceano que me chama
para dentro do calor maternal
que dura a própria essência da vida
eu já não estou eu já fui
na canoa verde dos índios
eu não posso adiar a coração
terça-feira, 1 de abril de 2014
FALAM FALAM FALAM MAS O ACORDO ORTOGRÁFICO JÁ ESTÁ A SER APLICADO NA OUTRA MARGEM DO ATLÂNTICO
UMA ESPÉCIE DE TRANSGÉNICO, MEIO JUDITE, MEIO MARCELO
AS 1001 NOITES DE SEVERA ESCURIDÃO, QUE EM BRASILEIRO FICA MUITO MAIS LEVE E SENSUAL. TESÃO P'Á CARALHO!
quarta-feira, 26 de março de 2014
VIVAM AS PUTAS QUE SOMOS TODOS LIVRES CARALHO!
É QUE ATÉ ME VENHO DE FELICIDADE, Ó DEUS!
FINALMENTE ALGUÉM AO NÍVEL DOS FEDORENTOS!
FINALMENTE ALGUÉM AO NÍVEL DOS FEDORENTOS!
quinta-feira, 6 de março de 2014
2 POEMAS ABERTOS AO REGIME, SALIVA
exorto à primavera
que desponta
na erva fofa
que cobre os prados
escutando
chilrear os pássaros
resmalha-me
um regato na boca
e é por isso
que em ti penso coelho
correndo
para minha toca
dão-te caça
a torto e a direito
mas tu único e verdadeiro
és um coelho
muito esperto
cada palavra
tua uma luz divina
que se
entorna por mim adentro
tens perdido
cabelo
isso que
dizem é só inveja
corre para a
minha toca coelho
que eu
coço-te a careca
***
no longo
frio do inverno
se se assoma
a névoa da incerteza
enxugo as
lágrimas do medo
e prendo ao
quentinho do meu pensamento
os teus
discursos sobre crescimento
és duma
língua empreendedora
esgalhas tão
bem as palavras
quando à
coragem portuguesa teces loas
ardem-me os
peitos quais fagulhas
ergues alto
o mastro da nação
seguem-te
muitos capitães
com a brava
espada na mão
não me
amansa a fera
a pena do
poeta peço-te
do alto da
sofreguidão
coelho
quando possas
refunda-me a
constituição
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
há uma troika dentro de mim
não consigo explicar a felicidade
que me trazem as vozes inequívocas
da inquestionável sabedoria imperial
tenho andado pela noite a contar tostões
sem saber o que fazer desta tremenda insónia
com os olhos desfeitos em sangue
porque tenho guardado o pranto
e num segundo de luz abissal e virtude
vou dando passos e sinto‑me seguro
porque o país está muito melhor
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
DIÁRIO DE BORDO
a chuva tem
uma música que eu consigo ouvir
uma magia
meteorológica carregada no cinzento
que se
aprende a olhar o tempo nos olhos duma
criança
pendurada à janela na tarde de domingo
enquanto não
chega o sono e a escola não começa
demoramos a
crescer fazendo trabalhos de casa
damos por
nós a brincar e há uma vida inteira que passa
adiando o
despertador minuto a minuto
o cheiro das
torradas faz‑nos salivar na cama
e com dez
anos começamos a beber café
e dez anos
mais tarde somos a mesma criança
o sono a
chuva as tardes de domingo
que nunca
conseguimos preencher
põe‑lhe mais
dez anos em cima
e o que
mudou foi o tamanho da roupa
e agora
brincamos como gente grande
todos os
trabalhos ainda são de casa
não temos
testes mas aquilo que nos aconteceu
pode ser que
nos dobre a broa d’asperança
***
aqui a bordo
vamos todos bem
porque não
existe mais do que este barco
e ainda
conseguimos ir todos dentro dele
e na verdade
a grande luta que travamos
é esta
vontade de fugir acometida ao infinito
podemos
pensar que passa mas ao largo
não existem
os mínimos sinais de terra
e até as
baleias fogem de nós
enterrámos
definitivamente o azul
vamos todos
bem mas somos um perigo
somos o
escuro mais duro do destino
a mancha
salgada nas cartas de navegação
que nenhum
astrolábio consegue resolver
e todas as
mães continuam a chorar
***
o mito é a moca que faz o futuro
a ânsia que
faz as nações perdurar
o espectro
da grandeza a simulação
o fantasma
intermitente da obscuridade
sem que a
nefasta sombra nos tombe
e por
ventura admiremos na dureza
os tratados
que nos dizimaram aos milhares
havemos de
continuar navegando
o mar só tem
duas coisas certas
a volta ou o
não voltar
a história
só tem uma
Subscrever:
Mensagens (Atom)

