segunda-feira, 29 de agosto de 2016
sábado, 23 de janeiro de 2016
DIÁRIO DE BORDO

HOJE COMI O PEIXE MORTO A NOITE PASSADA
O NOBRE SACRIFÍCIO EMOCIONOU-ME
SE CHOREI MUITOS PEIXES CHORARAM COMIGO
***
Nós que dobrámos e queimámos as mãos
na grande fogueira dos barcos passados
que do feitiço não nos livrámos
havemos de passar longas noites encobertas
buscando esse canal sagrado essa felicidade
E um dia lá regressados e livres das prisões terrenas
descobriremos um refúgio um templo de limo e de sal
onde se possam viver as coisas belas e sagradas
como nos tempos antigos
quando um pai ensinava a sua arte ao seu filho
sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
TRADIÇÃO
o modo antigo
de fazer as coisas
será sempre defendido
entre os caçadores de baleias
entre os comedores de focas
entre os criadores de porcos
O "problema" do tempo
é que enquanto um se acaba
um outro começa
o homem deve eternamente
a sua vida à mudança
e há um tempo que procede à cobrança
Chegamos somos e vamos
uma sucessão de espaços no tempo
que acontecem o ser
Temos a história
a memória
e aquilo que pudermos fazer
de fazer as coisas
será sempre defendido
entre os caçadores de baleias
entre os comedores de focas
entre os criadores de porcos
O "problema" do tempo
é que enquanto um se acaba
um outro começa
o homem deve eternamente
a sua vida à mudança
e há um tempo que procede à cobrança
Chegamos somos e vamos
uma sucessão de espaços no tempo
que acontecem o ser
Temos a história
a memória
e aquilo que pudermos fazer
quarta-feira, 9 de dezembro de 2015
DIÁRIO DE BORDO
Sem grandes conflitos interiores
e em quase plena fruição desse divino
que faz do vinho um ofício
permite-me álvaro que acrescente
mais sentimentos esdrúxulos
à sua famosa concepção do ridículo
soubesses o que é mudar fraldas
em vez de cartas tinhas escrito
cacas naturalmente
***
chegámos então aqui
tudo verdadeiramente estilhaçado
a expansão fragmentária do universo
e simultaneamente o seu colapso
num rarefeito centro de gravidade
o monólito de kubrick e de clarke
agora sim e finalmente
plantado no quarto
***
nós não parámos
estamos a ajustar um novo tempo
para podermos continuar
esta terra foi lavrada funda
***
estou falto no verbo
confesso que não tenho
corrido muito
***
um homem nunca se afasta
ás vezes tapa os olhos
ás vezes fecha a boca
engole cospe arrecada
os seus humores longe da oração
mas o punho firme e fechado
vai sempre batendo no peito
silenciosamente
demora
mas um dia a pedra cai
e a água sobe toda de repente
sexta-feira, 20 de novembro de 2015
19NOV2015
muito se dirá sobre estes dias
sobres os ataques de paris e o isis
o governo de esquerda e o presidente na madeira
o mundo inteiro andará cheio de palavras na boca
tudo acontecerá e não acontecerá coisa nenhuma
veremos nova constelação firmar-se ou não
e tudo se reunirá brilhantemente
sobre a mais novíssima tragédia humana
dezanove de novembro do ano de dois mil e quinze
indo para casa já sei lá umas cinco estava chegando
cai sobre mim onde é que eu estou
***
é importante estar minimamente preparado
ter-se feito certas coisas ajuda
mas isso não fará diferença nenhuma
quando bate bate
e bate
e bate
deve ter sido assim desde o princípio
grandes caçadores completamente indefesos
***
um estado do querer
aquele querer que só quere e é puro
e que isso seja lá o que for
que é o que devemos aprender
por muito que nos teime
nãos nos deixará seguro
***
de um planeta estrangeiro
senti a palma da mão suar
vi o que foi nascer
vendo a tua força bruta
não te consigo distinguir
do que acabou de vir ao mundo
só amor vai tão fundo
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
rumamos a um
país desconhecido
a nossa pátria
é a nossa língua
a nossa
língua é a dos igrejos avós
dos avós não
temos a certeza
mas foram
pobres num país
do qual já a
lembrança é distorcida
e a memória
dessas coisas
tão lambuzada
de sangue
só faz
ridícula a propaganda
rumamos a um
pais desconhecido
e os homens
que não temem
aquilo que
não sabem
não sonham
aquilo que os segue
nem tomam aquilo
que os soma
e na sombra
é tudo
fofinho
rumamos a um
país desconhecido
escolhemos o
amor uma ilha e uma cabana
escolhemos
ir para onde foder seja forte e fundo
e o dinheiro
muito nos olvide a puta da cagança
e os por-dos-sóis
celestiais sejam brutais
e adeus
rumamos a um
país desconhecido
onde todas
as províncias são desconhecidas
onde não
existe o reino num reino
rumamos a um
país desconhecido
segunda-feira, 10 de agosto de 2015
DIÁRIO DE BORDO
quando o raio do sublime te atinja
e tu na tua profunda honestidade
não lhe adivinhares a graça
ou porque outro fundamento
se interpõe mais forte
e tu que tanto queres escrever
investes em memorizar um rasgo
que julgas ser um puro acesso de poesia
e tens razão e por isso repetes
insistente na cabeça essa primeira estrofe
para te perderes no meio do que poderá vir a caminho
caga nisso desfruta não escrevas nada
será o teu maior sucesso
repeti-lo-ás vezes sem conta
escrever sem ter escrito nada
***
a grande cidade cairá
insisto teimosamente em escrever
enquanto combato as misérias ordinárias
que me obstinam porque só vejo destino
nas distâncias imensas na vastidão do tempo
que são na realidade o universo em que vivemos
e não esta penúria esta opressão este crime
esta condenação a iminência do fim súbito
esta falta de alegria esta eternidade de grandes e pequenos
esta luta sem ser luta que para lado nenhum nos leva
e nos enterra e lá fora a grande noite de nebulosas
e galáxias e planetas e estrelas que explodem como sinfonias
e os homens parados sem fazerem o que fazem os homens
domingo, 19 de julho de 2015
sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
DESTRUIÇÃO ORGANIZADA DE PAISAGEM

O Ilhote da
Cobra já não existe. Não sei porque lhe chamavam assim. Devo ter algum tio que
ainda se lembre. Mesmo para mim, o ilhote sempre me pareceu exótico. Muitas
vezes caminhei pelo sapal em redor, e sempre o olhei com espanto. Uma dezena de
casas ali, numa escassa areia rodeada de lama e arbustos salinos. De um lado, a
Praia de Faro e a Ilha Deserta, e o acesso ao mar. Do outro o entrançado de
canais que leva à cidade e à Ilha do Farol.
Para mim, o Ilhote
da Cobra, com as suas casas brancas ali plantadas no meio da ria, não era
somente parte da paisagem, era também uma espécie de herança anónima, fazia
parte de uma memória colectiva. Ali viveram pessoas. Há uma história de vida
marítima ligada ao lugar, àquelas casas. O Ilhote da Cobra, não é o Ilhote da
Cobra sem as suas casas, sem os seus vestígios humanos. A demolição das casas
no Ilhote da Cobra, implica a demolição de um registo cultural. As demolições
nas ilhas barreira da Ria Formosa são a evidência física dessa destruição.
Mas nenhuma
cultura desaparece sem que outra, emergente, tente se sobrepor. Neste caso
concreto, é uma cultura higienista, a da preservação e da renaturalização, que,
de tão humana, é perversa. Transporta em si uma razão retrógrada, uma queda
para trás de querer ser tão à frente. Esta cultura entende a Ria Formosa sem os
seus homens, sem os seus vestígios, uma coisa limpa e estetizada. Vê no acto de
subtrair à Ria os seus homens, uma forma de preservar essa experiência cultural,
à qual se sobrepõe. Retirar os homens da Ria à Ria, é artificializar a Ria.
Será certamente feito um museu, um dia, para acabar de vez com tudo.
O conceito de
renaturalização é simplesmente um desastre, uma ofensa gravíssima à minha
integridade. Renaturalizar é a práctica camuflada do resort. Mas é também um buraco negro asqueroso desta cultura, que
tudo arrasa e devora, rebuscando eternamente os seus disfarces. A
renaturalização não implica só demolições, implica também a eliminação de
diversas espécies vegetais, trazidas pelo homem, como por exemplo a árvore com
mais de 30 anos que tenho aqui à frente de casa. Gostava de saber se têm algum
plano de contenção para os melros, que nos últimos anos têm vindo com mais
frequência aqui nidificar. E já agora muito boa sorte com a remoção do chorão-das-praias.
Assim como não
há uma Ria com homens e outra sem homens, não há um Ilhote da Cobra com casas e
outro sem casas. A destruição física do Ilhote da Cobra (resta apenas o lugar higienizado), implica a destruição
do seu imaterial. A organização que propõe repor assegura a destruição.
Como disse um
amigo meu, “renaturalizar é pôr como estava antigamente”. Mais simples do que
isto é difícil. Tentar pôr uma coisa como ela estava antigamente é, fundamentalmente,
fascista. Num mundo em mudança veloz e constante, que esforço é este para "pôr
coisas como elas estavam antigamente"? E que rara entrega é esta à impossibilidade?
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