segunda-feira, 11 de março de 2013
sábado, 9 de março de 2013
ATÉ QUE SEJAM DESTRUÍDOS
cheiram a pólvora os amplos corredores
as salas com mobília do século dezanove
aqueles átrios de mármore com longas cortinas de fundo
ocultando os emblemas das empresas
atrás dos símbolos nacionais ecoa
o cheiro antigo do sangue
andam bestas à solta que vestem armani
quando falam de sacrifício falam de deus
quando falam da miséria falam de darwin
e o esterco noticiário é um gás mostarda
que me põe a vomitar ao canto da insolvência
o chicote já não estala
temos todos carta de alforria
e seguem homens nas ruas dizendo não aos filhos
e quem ganha é a nestlé que vende muito nestum
peçonha é ao que a vida tresanda
uma montanha de papéis p’ra preencher
onde nos fazem perecer um a um mil a mil
ao frio dos tempos e dos pós modernos
os palácios dos governantes de hoje
são os palácios dos governantes de ontem
e hão-de sempre cheirar a sangue
até que sejam destruídos
sexta-feira, 8 de março de 2013
-O coração- de Stephen Crane seguido de índios comanches (EUA)
No deserto,
vi uma criatura nua, brutal,
que de cócoras na terra
tinha o seu próprio coração
nas mãos, e comia…
Disse-lhe: «É bom, amigo?»
«É amargo – respondeu ‑,
amargo mas gosto
porque é amargo
e porque é o meu coração»
***
Djá i dju nibá u
i dju nibá i dju nibá u
djá i dju nibá i ná ê nê ná
i djá i naí ni ná
i dju nibá u
i dju nibá i dju nibá u
djá i dju nibá i djá ê nê ná
"AS MAGIAS", poemas mudados para português, Herberto Hélder, Assírio & Alvim, 2010
VOCÊS VOCÊS VOCÊS
vocês têm
brutos ordenados
reformas
vitalícias belas vivendas belos carros
têm muitos e
bons negócios privados
vocês têm
bons fatos e relógios dourados
vocês têm o
estado
vocês têm a
estatística e a televisão
vocês têm
sempre maneira de justificar a podridão
vocês têm as
polícias e os tribunais
vocês têm
filhos com contas em paraísos fiscais
vocês trazem
a lei nos bolsos
e fazem-nos
viver com meia-dúzia de trocos
vocês querem
refundar a constituição
para foder
legalmente o cidadão
vocês vão
para o dubai e p’ró rio de janeiro
fazer o
negócio que é do interesse nacional
são as
nossas mais valias o investimento musculado
levantar a
economia na liberdade do mercado
mas o “nós”
que vocês dizem tem o prato p´lo cagulo
vocês não
têm vergonha vocês só querem dinheiro
vocês são
putas que chulam um país inteiro
p’ra vocês
isto é igual ao litro é tudo como o outro
abriu no
ministério mais uma pasta p´ra mentiroso
vocês têm
marcelos p’ra mostrar que isto é normal
vocês têm jotinhas
a espumar da boca carreiras
nas colunas
do jornal no comentário intelectual
vocês têm
sangue nas algibeiras
vocês são a grandessíssima
cópula dos partidos
uma
procissão dos santos mais vendidos
vocês são os
salgados e os belmiros
são toda a
gente que aqui anda a pensar se dá p’ra ter filhos
vocês são fachos
são a luz ao
fundo da cultura do tacho
vocês são a
inversão e a retoma
porque o fmi
não é coisa que entre em qualquer cona
vocês são o
regresso aos mercados
toda uma
gama de produtos reciclados
vocês são os
índices dos observatórios dos institutos
das
fundações das ajudas dos empréstimos dos prolongamentos
das leituras
a tirar das viragens do há coisas
que não podem
ser faladas em público
vocês vocês
vocês vocês vocês
vocês é que
são o défice
quinta-feira, 7 de março de 2013
PEDRAS PAUS PALAVRAS
basta de papas na língua
o que eu quero é tudo a arder
o que eu quero é ver quem vos jogará a mão
no dia em que se acabar a submissão
basta!
eu não vim aqui para ser a parte fraca
porque de onde eu venho não há sim nem não
lutar é a minha condição
pedras paus palavras
homens sem vergonha e sem raça
homens fodidos com o que se passa
homens-fúria que rebentaram a mordaça
homens que só querem ser homens
homens que digam BASTA!
pedras paus palavras
facas na vossa garganta
terça-feira, 5 de março de 2013
O MEU PAÍS...
o meu país é a lei da aparência
uma simulação ateada nos corredores da política
com a inspecção em dia certificada
pelos agentes do mercado financeiro
neste tempo em que todos os problemas
boiam entre a merda da culpa em que vivemos
acima das nossas possibilidades
o meu país é onde eu nunca andei de submarino
onde as novelas ensinam que há patrões e empregados
para que o cidadão pequenino do meu país perceba
que deus põe sempre a mão por baixo
o meu país é um país moderno
é um país que abraçou a união e o progresso
com vários políticos muito bem sucedidos
e muitos e bons empreendedores activos
e eu tenho muito orgulho no meu país
que é muito livre e democrático
o meu país é o país onde se diz
que há falta de liberdade de expressão
quando se manda calar um criminoso
o meu país é uma caldeirada
leva pouco peixe e muita batata
o meu país é o da turma da gravata
onde há vergonha de cantar o que nos mata
o meu país é onde é necessário
trabalhar mais e receber menos salário
onde é preciso pagar tudo mais caro e aguentar
porque os heróis são aqueles que mais aguentam
em nome do bem e da virtude que é
viver assim num país feito de miséria
o meu país é o país dos quatro efes
fado futebol fátima e que se fodam
aqueles que não aguentam a austeridade boa
o meu país é uma questão de família
o pai a pátria o partido
estás aqui e aguentas porque és preciso
vais trabalhar uma vida e ser enterrado vivo
mas descansa que é o céu e p’rós teus filhos
hão-de vir os filhos deles p´ra lhes mostrar o caminho
o meu país é uma fronteira que arde sem se ver
que é funda e que dói e não se sente
pois p’ra sentir é preciso ser mais que gente
que ganha roubando dizendo que tem de ser
o meu país é o que trago vestido
é o sono que não tenho dormido
a chuva ácida que dissolve as cidades
o flagelo da consolidação a factura
que declara o imposto
o meu país é aquilo que eu não posso ser
porque ser feliz agora seria contrariar
o psi 20 o preço da gasolina e as promoções
com que os jerónimos martins ajudam o pobrezinho
e temos todos que aguentar
qual nau em busca de novos mundos
o meu país é o que exporta as pessoas
que não conseguem pagar a sua vida
o meu país é o do trabalho
onde o povo é mercadoria p’ra vender ao desbarato
o meu país é o da esperança
onde qualquer puta dança ao som do bom dinheiro
o meu país tem uma voz
a que está hoje nas ruas do meu país inteiro
sábado, 2 de março de 2013
sexta-feira, 1 de março de 2013
aleixo reloaded
Este texto foi escrito em 2010, pouco tempo antes de Faro receber as celebrações oficiais do 10 de Junho. O coelho aqui é outro, mas nem por isso é menos filho-de(ou será da)-puta que o nosso estimado primeiro. Amanhã vou p'rá rua e vou passar factura.
está à frente dos teus olhos
em todos os telejornais
está na dor dos teus trabalhos
nas quarenta horas semanais
pergunta‑te porque são
sempre os mesmos no poder
se eles estão lá só por que estão
ou se é assim que tem de ser?
tu contas os tostões
eles contam os milhões
tu não tens para um sapato
e eles comem fois‑gras de pato
porque é que os grandes bancos
foram salvos de imediato
e o teu salário mínimo
está cada vez mais baixo?
será que a corrupção
é um mal da política
ou faz antes parte
da economia parasita?
repara como eles dançam
entre o governo e as empresas
será só coincidência
ou profunda prepotência?
tu contas os tostões
eles contam os milhões
o que te falta ao fim do mês
é o que eles levam à vez
se quem não deve não teme
porque é que eles andam blindados
em carros de alta cilindrada
que custam tanto dinheiro ao estado?
olha esta corja d’engravatados
que anda pilhando Portugal
senhores muito doutorados
na grande miséria social
tu contas os tostões
eles contam os milhões
o que tu pedes emprestado
é o que eles te têm roubado
agora Faro vai receber
uma parada militar
passados trinta e seis anos
não parece isto Salazar?
roubou o Coelho à cidade
tanto que até foi julgado
mesmo assim saiu em liberdade
só porque é homem honrado
o Correia peitudo já canta
por aqui desde 87
só para mostrar que anda
muito bem na biciclete
tu contas os tostões
eles contam os milhões
a liberdade que te foi dada
é a sua propriedade privada
eles querem tudo só p’ra eles
eles gostam muito de comer
para ti ficam os ossos
vais ter muito que roer
e com o programa polixe
vai ficar tudo muito limpinho
que só pra pôr um pé na água
paga mãe e paga o menino
tu contas os tostões
eles contam os milhões
tua vida inteira na corda bamba
e eles pedem-te confiança
o estádio está já ali
o que foi preciso foi tê‑lo feito
e eu digo já aqui
nem tu nem eu tirou proveito
o bigodinho é que se safou
arranjou logo outro tacho
o que o Allgarve tem de bom
eu cá não vejo nem acho
o teatro é mesmo bonito
trás cá umas grandes peças
então e nós que fazemos aqui
à tantos anos nesta terra?
tu contas os tostões
eles contam os milhões
tu de corda ao pescoço
e eles contentes no baloiço
a mim dói-me o coração
todos os dias quando acordo
porque nunca há‑de ter perdão
a mentira neste mundo
vem p’rá rua põe‑te louco
antes maluco do que sacana
há que partir tudo e não é pouco
na minha vida sou eu quem manda!
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